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AULA DE PORTUGUÊS NA MADRUGADA



					    
Mais fácil dizê-lo alemão do que esmiuçar mapa da Europa. Afinal, ele falava alemão e era conhecido na fábrica de cigarros como “o mecânico alemão das máquinas”.  Viu a moça e encantou-se.  Branca de quase neve, rosada às vezes quando ria, cabelos mais negros que a......... (ih, ALENCAR, o escritor cearense, já (d-)escrevera muitos anos antes!), corpo violão tal e qual pinturas do VAN GOGH.  Casada com um super ciumento, todas as manhãs trazia junto um menininho para a creche do operariado, poucas amigas.  Respeitou, olhou de longe, depois ela sumiu - largou o emprego, acompanhara marido a uma estação de cura na montanha.  Voltou ao final de dois ou três anos.  Mais madura, mais consciente da fragilidade da vida, ainda menos amigas, conversava pouco.  Ele  reconheceu a sua admirada - informaram que o marido morrera e ela voltou do interior novamente grávida, agora nascera uma menina.  Sutil e diplomaticamente, ele ganhou coragem e ofereceu uma rosa vermelha sem espinhos.  Muito mal falava português, mas a mão do lado esquerdo do peito é linguagem universal.  Cerca de vinte anos mais velho, “quarenta anos e lá vai fumaça” (45?), em linguagem popular, mas aquele tipo medieval masculino, machão-protetor, lírico rude, tocava gaita alemã, balbuciava ‘lieds’ melodiosos não traduzíveis, cheio de sedução e encantamento quase hipnótico.  (Há seguidores decentes-honestos hoje em dia?)  A “equação 1914/18” fora mal resolvida, era esperada a II GM a qualquer momento.  Razões políticas um tanto disfarçadas (como sempre!), mas foram proibidos no Brasil casamentos com estrangeiros não ibéricos. Piormente do Leste Europeu....  Foi um namoro de poucos meses - ele aparecia nas manhãs de domingo, todo ‘derretido’ com as duas crianças ainda pequenas, trazia bombons... depois, parque de diversões ou jardim zoológico.  Ela acabou se decidindo a morar com ele.  (Mais tarde, o menino se recusava a chamá-lo de pai:  “Pai é quando a mãe se veste de noiva.  Fomos de trem.”)  Casa de subúrbio, ruim para ele trabalhar no centro da cidade; nasceram mais uma menina, início do conflito mundial, e em seguida outro menino.  A guerra veio, a guerra se foi.  Agora, tempo de  c  a  s  a  r  legalmente!  Aí, um amigo alemão ofereceu ocuparem a parte maior de uma casa em bairro próximo do centro, homem sozinho descompromissado (terrível teoria de NIETZCHE?), proprietário do imóvel grande, mas lhe bastava um quarto e o jantar.  Casa?!  Terreno gigantesco, muitas árvores frutíferas, arvoretas de flores, jabutis enormes, um carro velhíssimo sob um telheiro, verdadeiro paraíso aéreo de pássaros coloridos, pombos e  borboletas, foi logo instalado na jaqueirona um balanço de pneu.  Franz Karl, sobrenome com duas  vezes a letra ‘k’, Carlos em família para facilitar, continuou péssimo em língua portuguesa.........  No final de alguns anos, comprou uma casa para residência (família aumentara)  e montou oficina no porão - fabricava sozinho certas peças que entregava semanal ou quinzenalmente no centro da cidade;  neste dia, almoçava feliz  ‘eisbein mit chucrute’ (tradicional comida alemã: joelho de porco e conserva de  repolho fermentado), sorria ao beber cerveja preta amarga, e à tarde  trazia ‘apfelstrudel’ (torta austríaca de maçã).  O tempo não pára.........  Como contar nos dedos os anos que se sucedem?!... Certa madrugada, porta do quarto aberta, mulher ouviu um resmungo forte da cadela Baleia (amava que filhos lessem GRACILIANO RAMOS para ele:  “Guaraná para todo mundo!”) fora da casa  e viu uma claridade arredondada ‘caminhando’ no chão da sala.  Imaginou acertadamente alguém na varanda, lanterna encostada no vidrinho da porta.  Mulher acordou o ‘cumpridor de deveres’ (isto aprendeu a dizer rapidinho e era de fato).  Mão no braço dele para um acordar suave.  “Carlos, tem uma luz ‘andando’ na sala”.  “Ó, sim, eu pagar segunda-feira conta de luz.”  “Não é isso.  É uma luz.”  “Ó, não, ‘faz jus’ não sei o quer dizer...  Quero dormir...”  “Uma luz!” - ela falou baixinho.  “Avestruz, aquela ave grande que corre e não voa?  Ah, sonhou com avestruz?  Bom palpite para hoje...”  “Luz esquisita, Carlos!” “Ah, sim, eu beijei a cruz de Jesus na procisson de abril.........  Quero dormir.”  Mulher falava “luz”, ele ainda no mundo do sono, embaralhava a audição (nada surdo!) e tentava tirar do fundo do cérebro todas as quase raras palavras terminadas em ‘-uz’ que a duras penas conseguira aprender até então.  A visão sumiu...  ela calou-se e adormeceu.  Nem tão cedo amanheceria, porém o homenzarrão  desistiu de dormir, saiu da cama e foi sentar perto da gaiola do atualíssimo papagaio, Herr Grun (‘grun’, verde), guardada na cozinha ao anoitecer,  que logo acordou também...  As aves se sucediam (média alta de vida, mas ai que passasse no ar uma loura papagaia... o voador de casa fugia!),  mas Carlos  as tomava como temporário professor-repetidor, para fixação, e o animalzinho era imediatamente gratificado com espiga de milho cozida no caldo de carne.  “Ho, ho, ho... português......... ser muito difícil!”  (resmungava sempre isto como um Papai Noel /corpo atlético não gordo/ fora de época).  Ainda lembrou alcaçuz (xarope), Queluz (fim de semana, visitar uma fábrica paulista metalúrgica, pleno funcionamento num sábado-feriado e... no domingo, pode?), andaluz (não sabia o que era), cuscuz (doce gostoso:  comia e repetia), capuz (da garotada de casa), arcabuz (só ouvira-conhecia o significante, não o significado).........  Acordou espantado, cabeça encostada na parede, papagaio também cochilante pendurado por uma ‘perninha’ na corrente, sol chegando...  chefe de si mesmo, porém hora rígida germana de chuveirada fria, macacão sempre limpo, óculos de segurança (recém-inaugurada loja de artigos “Made in Germany”)  e começar a trabalhar.  Café da manhã, avisou “Hoje com Schwarzbrot  (pão escuro alemão com sementes variadas)”...- dois tipos fatiados, o amargo só para ele e para o caçula, imitador do pai. A vizinha do outro lado da rua chegou com a notícia.  Ladrão noturno.  Uma criança fantasiosa acordara escutando pisadas, vira na madrugada uma luz ‘andando’ no chão e papai-mamãe não acreditaram (criança apenas fantasia / adulto mente de fato!).  Ao lado da casa, pequena construção funcionava como  lavanderia familiar - levaram a máquina de lavar e cestos com roupa suja, deixando frasco vazio de anestesia animal e disfarçado  bilhete de ÇANK YOU (ou de fato ladrão péssimo estudante?).  Cachorro da casa tivera longa noite de sono.  “E a nossa Baleia também!!!” Exótica aula de português rendeu, chefe da família durante alguns dias endoideceu todo mundo no aprendizado papagaioso de palavras com final ‘-uz’.  Ah, e pediu que a filharada pesquisasse sobre o tamanho do ovo da (vacilou)...  “Avestrua?” ------------------------------------------------------------------------ LEIAM meus trabalhos “Espaguete vermelho... ou o quê?” (mesmo protagonista) e “Rimas em -ulho” (outro, agora surdo de verdade). NOTA DO AUTOR: ARCABUZ - Antiga arma de fogo, portátil, pesada, inventada no Sacro Império Romano-Germânico, século XV -  pesquisei, tá?)  - em alemão, ‘Hakenbuchse’. F  I  M  
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Comentários dos leitores

Pois é, amor é isto - a guerra passou, alemão casou. E haja palavras terminadas em -uz! Bela estória. Parabéns!

Postado por lucia maria em 03-12-2017

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